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[:pb]Bruno Gobbato é médico ortopedista especialista em cirurgia do ombro e cotovelo e Diretor científico da Sociedade Catarinense de Ortopedia e Traumatologia. Além de cirurgião, também preside a comissão de TI da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia e considera-se um desenvolvedor de aplicativos para a área médica. Em 2009, quando o iPhone ainda dava seus primeiros passos como referência em design e tecnologia, Bruno criou seu primeiro aplicativo para iOS, chamado “OrtoClass, um app específico para ortopedistas que organiza as principais classificações de fraturas em Ortopedia e Traumatologia. Nesta entrevista especial para o 3DPrinting, Bruno Gobbato conta um pouco da sua paixão pela tecnologia, que o fez enveredar pelo caminho da impressão 3D no planejamento de suas cirurgias.

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O médico “geek” Bruno Gobbato. Imagem: ocponline

 

3DPrinting.: Bruno, você mantém um site, bastante interessante por sinal, que conta com vídeos e informativos de dicas para casos envolvendo sua especialidade. Gostaria que nos contasse um pouco da sua história, de como iniciou seu contato com o mundo de possibilidades da impressão 3D. O que te motivou? O que te desafia?

Bruno Gobbato: Sempre gostei de tecnologia, mas durante a faculdade e principalmente a formação como ortopedista, tive que deixar um pouco de lado esta paixão para me dedicar a minha profissão. Logo que me formei ortopedista e fiz minha especialização em cirurgia do ombro desenvolvi o site ombroecotovelo.net para os meus pacientes. Fiz todo o conteúdo e escrevi o site em html. Em 2009, desenvolvi meu primeiro aplicativo para iOS, chamado de OrtoClass. Um aplicativo específico para ortopedistas que ficou muito conhecido entre os médicos residentes, numa época ainda do iPhone 3. Após este, desenvolvi mais outros 4 apps.

Em 2013, vi um vídeo de uma empresa chamada Materialise, que mostrava o uso da impressão 3D para criação de guias para cirurgias. Pensei: “eu consigo fazer isso”. Contatei um dos professores da Universidade (Católica de Santa Catarina), que era meu paciente, e fui conhecer a impressora deles. Era uma FDM da Stratasys. Estava longe da minha realidade financeira mas entendi que poderia replicar aquele resultado. Hoje tenho 4 impressoras domésticas, mas cheguei a ter 6 ao mesmo tempo. Todas para uso pessoal.



3DPrinting.: Em um hangout em janeiro deste ano para um canal internacional de medicina, você detalhou sua experiência com impressão 3D aplicada à ortopedia, sua especialidade. Foi impressão ou realmente entendemos bem que você não imprime protótipos apenas para estudo, como também para ser implantado no paciente?

Bruno Gobbato: Na verdade todos os modelos e guias não são implantados. São apenas guias e instrumentos que são usados e descartados. O uso de implantes ainda está muito longe de ocorrer de forma ampla e comercial.

3DPrinting.: Ainda tendo em mente a questão anterior, qual sua avaliação sobre o mercado atual de impressoras 3D para uso doméstico aplicadas à área da saúde? Como acredita que esse mercado deve evoluir, de agora em diante?

Bruno Gobbato: Eu acredito que os modelos 3D serão os novos “exames de imagem” do consultório médico nos próximos anos, com a diferença que não é possível ter uma máquina de ressonância na bancada do consultório, mas a impressora 3D sim!

Falo para os meus colegas médicos que a impressora 3D ainda dá trabalho e precisa de um pouco de manutenção. Faço um paralelo com as impressoras matriciais. A alimentação dos filamentos é parecida com dos papéis daquelas impressoras e os erros também são muito parecidos.

3DPrinting.: Como a impressão 3D influencia em suas técnicas e procedimentos no dia-a-dia como médico cirurgião?

Bruno Gobbato: Minha cabeça mudou. O entendimento da anatomia das lesões que trato e opero saiu de uma visão 2D para uma visão 3D. Isso é uma mudança grande no nosso cérebro. Percebi que a realização de certos procedimentos se faz muitas vezes mais de uma memória muscular e repetição.

 

Modelos 3D nos forçam a realmente entender aquela lesão e ter um conhecimento diferente da anatomia. Sou um cirurgião melhor hoje.


3DPrinting.: Qual a chance de dar tudo errado? Imagino que nem tudo são flores, certo? O que de “mais errado” já aconteceu em algum procedimento cirúrgico envolvendo uma peça impressa em 3D e como você contornou a situação?

Bruno Gobbato: Sempre temos o plano B, que na verdade é o plano A antes da tecnologia 3D. Usar a cirurgia convencional com as técnicas e exames do dia a dia. Nunca passei nenhum aperto maior, mas com certeza nem sempre os modelos funcionaram 100%. Isto se dá principalmente porque usamos os ossos como nossa referência, mas existem várias estruturas como músculos e tendões que não são impressos na peça e podem trazer alguma dificuldade de adaptação. Por exemplo, para a segunda cirurgia que fiz, desenvolvi um guia (espécie de “planejamento da cirurgia”) grande, que era maior do que a incisão que gostaria de fazer na pele do paciente. Neste caso, abandonei o guia e continuei normalmente com a cirurgia. Mas não perdi nada. O conhecimento que adquiri daquela lesão, todo o planejamento que fiz antes da cirurgia e até mesmo a realização da cirurgia virtualmente, me trouxe uma segurança e entendimento da anatomia específica daquele paciente.

Como não temos uma formação de Engenharia e a maioria dos nossos trabalhos são feitos em softwares CAD genéricos, precisamos aprender e lidar com alguns erros de software. Hoje todo este processo está bastante automatizado na minha cabeça.

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Peças impressas em 3D ajudam no planejamento da cirurgia



3DPrinting.: Pensando no fator tempo, como você avalia a eficência x eficácia da impressão 3D no processo cirúrgico quando comparada ao método tradicional?

Bruno Gobbato: A impressão 3D diminui muito o tempo da cirurgia em si. Isso é fato e fácil de perceber, mas não diminuiu o tempo total do procedimento, muito pelo contrário. Gasto mais tempo na frente do computador planejando a cirurgia do que no ato cirúrgico em si. Para o paciente, é o ideal.

3DPrinting.: Você poderia antecipar um pouco do que pretende apresentar em sua palestra no Inside 3D Printing São Paulo 2017?

Bruno Gobbato: Nosso objetivo é trazer exatamente o dia-a-dia de um médico que usa a impressão 3D para uso pessoal, sem nenhuma instituição, equipe de engenharia ou empresa por trás. Algo direto e honesto.

3DPrinting.: Como você enxerga o futuro da impressão 3D? Caminhamos para algo parecido, por exemplo, com o que aconteceu com a impressora 2D? Ou seja, no início eram máquinas enormes e totalmente inacessíveis ao usuário final, e hoje em dia qualquer pessoa pode adquirir uma em 12x no supermercado e usar em casa sem maiores dificuldades? Estamos mesmo no meio de uma nova revolução industrial, com todo o poder nas mãos dos próprios consumidores?

Bruno Gobbato: Considero a impressora 3D como algo de nicho, ainda em 2017, principalmente pela manutenção eventual e manual que precisa ser feita, mas isso tem mudado anualmente. Já vejo em lojas de shopping centers, aqui mesmo no Brasil, impressoras para vender. Nos EUA, é possível comprar em mercados como Wallmart.

Um usuário normal ainda teria um pouco de dificuldade para plugar e começar. Ainda não estamos totalmente plug ‘n’ play. Ainda faltam alguns sensores se tornarem mais amigáveis e inteligentes, como de nivelamento da mesa, distância do extrusor, problemas com filamento etc.

 

Hoje utilizo na minha prática diária uma impressora pequena chamada Minibot, produzida localmente em Florianópolis por um engenheiro amigo de encontros. Tenho tido cada vez menos problemas, provavelmente pela experiência adquirida e pela confiabilidade das máquinas mais novas.



3DPrinting.: Para estudantes e mesmo vestibulandos que desejam iniciar na impressão 3D voltada para a área da saúde, qual conselho você daria como profissional? Qual melhor caminho a seguir? Que dores evitar?

Bruno Gobbato: Comece pequeno. Os problemas são elevados ao cubo, na terceira dimensão, em todos os aspectos, desde tempo de impressão, chance de erro, problemas com modelos. Sempre que vejo amigos médicos pedindo sugestão de impressoras, a primeira coisa que eles observam é o tamanho da área de impressão. Sei que isso limita alguns usos, mas não comece com algo grande. Grandes modelos, grandes dificuldades.[:]

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