Para os que pensam que já chegamos no estágio de projetar e criar a própria mão em 3D, um aviso inicial: substituir a mão humana por completo seria muita pretensão da nossa parte. Em compensação, é bem possível projetar um dispositivo capaz de reproduzir algumas das funções da mão humana real, isso tendo em vista toda a complexidade – que, como veremos, não é pouca mesmo! – da Biomecânica. Quem garante é a professora da UNIFESP, Dr. Maria Elizete Kunkel, pioneira no Brasil com o Programa Mao3D, inspirado no e-nable, de próteses de mão para crianças da região do Vale do Paraíba (vale salientar que a região escolhida tem a ver com a proximidade da Universidade, dada a regularidade do tratamento, e a quantidade de próteses oferecidas).

PhD em Biomecânica, Maria é mentora do evento “I Escola de Inverno de Biomecânica da UNIFESP”, realizado em São José dos Campos em uma verdadeira maratona de conhecimento científico sobre próteses e órteses produzidas por manufatura aditiva em dois dias de evento. A palestra da professora abriu o encontro no sábado, 16 de setembro, no Auditório do Parque Tecnológico. Em sua fala, Maria destacou a importância da interdisciplinaridade na condução de projetos de tecnologia assistiva no país, e também como o Brasil é carente de produtos específicos na área devido à alta especialização requerida na produção desses dispositivos.  

“Quando a gente pensa em um dispositivo de tecnologia assistiva que poderia resolver uma questão de uma pessoa específica, estamos falando de desenvolvimento. E na parte de desenvolvimento, o que a gente precisa? A gente precisa de conhecimento. Um engenheiro precisa ter conhecimento também da área da saúde, senão ele vai projetar um dispositivo que não vai funcionar, e o profissional da área da saúde precisa passar as informações para a área técnica do que o paciente precisa, porque senão também não vai funcionar”, explica a professora. Ela também é taxativa ao afirmar que essa é [uma] das razões principais pelas quais o Brasil ainda carece de dispositivos de tecnologia assistiva.

maria

Maria conta que, atualmente, no país, temos duas opções: ou importamos produtos de tecnologia assistiva, ou fazemos de “qualquer jeito”. “E esse ‘qualquer jeito’, muitas vezes, é a única solução encontrada pelo pessoal da área da saúde, que sabe exatamente o que deve ser feito, porém não tem formação nem acesso a tecnologias para fazer isso funcionar”, diz. É justamente por esse motivo que a professora defende o casamento de disciplinas de Biológicas x Exatas x Humanas na formação de um novo profissional. E não se engane quem pensa que a demanda por produtos de tecnologia assistiva vem de uma minoria. Muitos de nós iremos apresentar deficiências dos mais variados tipos ao envelhecermos.

A respeito disso, temos outros dado alarmante para lidar: “o que acontece no Brasil hoje é que a maioria das pessoas que possuem uma deficiência, apresentam essa deficiência porque falta um dispositivo para superá-la”, conta a professora. É claro que cada um de nós apresentará deficiências em graus diferentes, mas para quem tem baixa visão, por exemplo, um dispositivo simples pode resolver o problema dessa pessoa. Da mesma forma como o óculos resolveu e ainda resolve o problema de muita gente. “O óculos já foi muito caro no início, era passado de herança, de geração para geração, porque era muito difícil fazer e quase não haviam empresas. Hoje temos várias opções para comprar óculos. Então basicamente ele deixou de ser um dispositivo de tecnologia assistiva, para se tornar um dispositivo de uso comum no cotidiano”, comenta, ressaltando que hoje em dia o óculos obedece inclusive [e principalmente] a fins estéticos.

Tipos de prótese e órtese de membro superior


Por vezes surgem dúvidas não somente sobre como é fabricada uma prótese, mas também uma certa confusão sobre os tipos de próteses existentes hoje em dia no mercado brasileiro. Para facilitar o entendimento de quem é leigo na área, vamos a um resumo dos 3 principais tipos: estética, mecânica funcional e mioelétrica:

Prótese estética: Não tem resistência mecânica e pode rasgar e manchar com facilidade; valor de custo em torno de R$ 7 mil. Prós: é realmente muito parecida com uma mão real. Contras: ao perder uma prótese estética, até conseguir uma nova o paciente terá que aguardar por pelo menos 2 anos.

Prótese mecânica: Tem a função de ser acionada pela articulação do lado contrário do membro amputado, e por essa dificuldade de movimentação acaba sendo a prótese com maior índice de rejeição, chegando a 90%. Valor de custo pode chegar a R$ 15 mil. Contras: adaptação muito difícil.

Prótese mioelétrica: Próteses que possuem sensores capazes de captar o movimento superficial da pele, que por sua vez aciona um motor para abrir e fechar a mão. Essas próteses são, no entanto, extremamente frágeis. Ainda não foi possível criar uma prótese mioelétrica de baixo custo que seja realmente funcional. Isso sem contar que o custo é muito alto, podendo chegar a R$ 300 mil.

Veja abaixo a íntegra da palestra da professora Maria Elizete Kunkel no evento “I Escola de Inverno de Biomecânica da UNIFESP”:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *