Poucas pessoas se dão conta disso – e em grande parte pelo sucesso retumbante das impressoras FDM, liberadas para desenvolvimento em massa a partir de 2009. Mas a bem da verdade é que a tecnologia de impressão 3D remonta aos idos de 1984 e, diferentemente das famosas máquinas que trabalham a extrusão de filamento plástico fundido, surgiu a partir de uma técnica conhecida pelo pomposo nome de “estereolitografia”. Tamanha importância da invenção do norte-americano Chuck Hull reside, por exemplo, na abreviação “.stl”, de estereolitografia em inglês, em referência ao formato padrão de todos os arquivos tridimensionais que conhecemos hoje.

Mas, embora a tecnologia de fotopolimerização de resina (estereolitografia) seja diferente e mais complexa que a popular tecnologia FFF (fused-filament fabrication), o conceito é semelhante, uma vez que em ambos os casos a impressão 3D só é possível a partir de um modelo tridimensional que “guia” o posicionamento das coordenadas x, y e z no espaço para definir o objeto a ser impresso.

Da boa modelagem nasce uma boa impressão, pode apostar. “O conceito na verdade é muito antigo, a ferramenta é que mudou”, define Jorge Lopes, um dos coordenadores do NEXT, Núcleo de Experimentação Tridimensional da PUC-Rio. Jorge, que é também pesquisador em Paleontologia, embasa a teoria ao exibir a imagem de uma esfinge de pedra de 300 anos A.C contendo o desenho das coordenadas para a criação de um modelo 3D usado para fins de aprendizado – isso já naquela época! – ao lado de outra, de 2017, criada a partir de um programa de modelagem 3D. “São 2300 anos que separam uma imagem da outra, mas é curioso observar como a base de pensamento é a mesma”, filosofa o pesquisador carioca, que é também designer e engenheiro de formação.

Jorge acredita que o papel do pesquisador é, fundamentalmente, o de ser uma espécie de “experimentador profissional”. Ou como definir, por exemplo, a ideia da criação de um vaso feito a partir da digitalização dos pontos de um espirro no espaço? Isso mesmo, o artista conseguiu criar uma forma orgânica a partir da projeção do próprio espirro no espaço. Ou quem sabe ainda outro modelo, também orgânico, obtido a partir do rastreamento e digitalização dos pontos no espaço do vôo de uma mariposa em volta de uma lâmpada? Parece mágico? Fantástico? Impossível?

Embora essas não sejam obras do pesquisador, mas de artistas europeus admirados por ele, Jorge ressalta que a importância do feito está na enorme quebra do modelo vigente. “São marcos incríveis que abrem portas para várias pessoas começarem a explorar essas novas tecnologias”, comemora ele. Sim, nós do 3DPrinting também comemoramos muito e buscamos sempre documentar esses passos! :)

Produção digitalmente customizada


De acordo com o pesquisador, já vivemos uma era em que “tudo é só uma questão de processamento matemático” para acontecer. Isso significa que praticamente qualquer coisa pode ser impressa em 3D, basicamente. Basta para isso que haja o modelo matemático relacionado. E um detalhe sempre pontuado em outras matérias desse site, é justamente a possibilidade da customização em massa, um marco que inverte toda a lógica da indústria como a conhecemos, não apenas em modelos virtuais personalizados, como também em maquinário – que deixa o modelo de fábrica convencional para se tornar “uma fazenda de impressoras 3D”.


Mas a coisa toda não para por aí não. Já ouviu falar em “programmable mater”, ou “matérias programáveis”, na tradução literal para o português? Se você compreendeu por isso algo como “programação da matéria”, sim, acertou: a premissa é que toda “matéria programável” seja gerada a partir do processamento da informação que, por sua vez, pode ser programada com base em ações do usuário ou mesmo por detecção autônoma (alguém falou em IoT?).

“Muita gente trabalha com materiais biológicos, muito mais sensíveis, portanto, o que nos leva a notar que não se trata mais de um ‘hardware pesado’, ou mesmo ‘indústria de transformação’, mas de algo muito mais próximo do que nós somos, no sentido mais humano da coisa mesmo”, diz o pesquisador. “Se daqui a pouco conseguiremos acrescentar código às coisas, ou simplesmente reproduzir essas coisas porque elas possuem um arquivo tridimensional, também estamos dando um passo muito interessante, sem a necessidade de transformar a matéria-prima como sempre fizemos”.

Jorge palestrou em setembro passado durante evento na Red Bull Academy, em São Paulo, onde sustentou como o poder do nosso cérebro em unir o convencional com as novas tecnologias é soberano, e não algo “substitutivo”, como tendemos normalmente a pensar. Abaixo você confere a íntegra da palestra dele no evento:

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