Muita gente no Brasil (e no mundo, claro) tem intenção de doar uma prótese impressa para alguém que precisa, mas não faz a menor ideia de como ajudar ou a quem procurar. Embora já existam atualmente programas de alcance mundial, como é o caso do E-nable, também presente no Brasil, dúvidas básicas quanto à impressão da prótese sempre persistem: qual material usar? como ajustar o tamanho? vai ficar boa no paciente?

Muitas outras questões cruciais, no entanto, por vezes longe do entendimento de um leigo no assunto, acabam passando despercebidas. “Um dado importante antes da protetização, e que jamais deve ser ignorado, é: quando a criança perde a mão, ela tinha a percepção do [esquema corporal] dessa mão? Porque se ela não tiver, será muito mais difícil a adaptação, uma vez que ela nunca soube o que é ter uma mão”, explica Patrícia Abe, Terapeuta Ocupacional que, junto com a Prof. Maria Elizete Kunkel, coordena o Programa Mao3D da Unifesp, em São José dos Campos.
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Antes de nos aprofundarmos na questão das próteses e reabilitação, porém, é preciso entendermos o significado do termo “tecnologia assistiva”. Em resumo, entende-se por tecnologia assistiva uma área do conhecimento de característica interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que têm por objetivo promover a atividade e autonomia de pessoas portadoras de algum tipo de deficiência. Essa é a definição oficial dada em 2004 pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos do Brasil. “A gente tem, de um lado, a pessoa; de outro, a atividade; sendo que essa atividade tem uma demanda. A deficiência causa o ‘gap’, enquanto a tecnologia assistiva vem para preencher esse ‘gap’ e atender a demanda para a pessoa poder fazer a atividade desejada”, explica Patrícia, que também é Mestre em Educação pela Unesp e especialista em Neurologia.

 

“A gente tem, de um lado, a pessoa; de outro, a atividade; sendo que essa atividade tem uma demanda. A deficiência causa o ‘gap’, enquanto a tecnologia assistiva vem para preencher esse ‘gap’ e atender a demanda para que a pessoa possa fazer a atividade desejada”


Patrícia revela alguns dados interessantes. Ela conta, por exemplo, que já existem pesquisas apontando que a chamada amputação bimanual (quando envolve os dois braços) tem melhor protetização do que a amputação unimanual (de um braço), o que, para a terapeuta ocupacional, é algo até lógico de se supor: afinal, se um paciente não possui a mão dominante, ele naturalmente usará a outra. Mas, e quando é então que a outra mão (com a prótese) entra no contexto? Simples: quando o paciente precisa pegar coisas grandes, ou ainda quando uma mão cumpre a função de segurar um objeto, por exemplo, enquanto a outra é capaz de fazer um movimento giratório para executar uma determinada tarefa. Do contrário, explica a terapeuta, não fará sentido [sob o ponto de vista do paciente] usar a prótese.


“Se eu tenho uma mão com prótese, e outra mão sem prótese, qual das duas vou usar para beber água? Sem dúvida é a mão sem a prótese. O paciente não vai usar a mão com a prótese no dia a dia para beber água, uma vez que já possui a outra mão para fazer isso”. De acordo com Patrícia Abe, essa é uma das principais razões pelas quais, na prática, as pessoas acabam deixando a prótese de lado para apenas buscar adaptar-se com a mão que restou para executar todas as atividades do dia a dia. E faz uma observação essencial: “Esse é um dado importante que também não pode ser ignorado: precisamos pensar bem se é ou não interessante encaminhar uma prótese para um paciente”. A razão para a reflexão da terapeuta é simples: todo o foco do tratamento é centrado na adequação e conforto do usuário do dispositivo de tecnologia assistiva, e é inevitável que também existam pacientes que não terão interesse em usar uma prótese no dia a dia.

Outro dado importante é se a protetização aconteceu logo após a amputação. Porque, conforme conta a terapeuta, muitas vezes o tempo vai passando e a pessoa simplesmente aprende a organizar a vida sem pensar em incluir a prótese na rotina diária. Por outro lado, se uma criança acabou de passar pela amputação, e o esquema corporal ainda inclui a mão – ou seja, a criança ainda tem a nítida percepção da mão que perdeu – então se essa criança ganhar uma prótese, no final das contas a adaptação dela será muito mais fácil.

Terapeuta como ouvidor


Patrícia conta que é bastante comum se pensar que toda pessoa que passou por uma amputação vai precisar necessariamente de uma prótese. O que, na prática, não é bem assim. “Quando a gente conversa com o paciente, a gente tem que saber ouvir”, resume. E exemplifica com a história de um grupo de cientistas que resolveu criar um óculos para cegos que vibrava quando o usuário se aproximava de um obstáculo qualquer. “Disseram para o paciente: agora você pode deixar a bengala e usar apenas o óculos. O paciente ficou apavorado e respondeu: mas a bengala faz parte do meu corpo, não tem como deixá-la, ela faz parte de mim”. Essa declaração, diz, a levou a outra reflexão importante no processo de reabilitação de amputados.

 

Também é crucial identificar o sentimento que a pessoa tem versus a expectativa em relação ao resultado final da prótese


“A gente precisa aprender a compreender o paciente na sua totalidade: por exemplo, por qual motivo ele quer uma prótese? É por uma questão estética? Ou seria funcional? Precisamos ter em mente, antes de tudo, que a pessoa que passou por uma amputação, se pudesse escolher, desejaria uma mão igual a que perdeu. Ou seja, a expectativa é a de adquirir uma mão igual àquela que a pessoa não tem mais. Então a gente precisa se adequar à expectativa da pessoa: o que você quer? Porque a mão que você quer, igualzinha à que você perdeu, a gente não vai conseguir dar. Mas podemos ajustar as expectativas do paciente visando autonomia e qualidade de vida, e é esse o nosso papel”, explica a terapeuta ocupacional. Pode parecer óbvio demais – ou não – mas muitos amputados querem uma mão não para tarefas complexas, mas para coisas muito simples como ir ao banheiro sozinho(a) ou mesmo beber água.

 

Qual a melhor forma de adaptar uma prótese?


Da pergunta-chave acima, advém uma secundária, não menos importante: como fazer para imprimir uma prótese que seja confortável no contato com a pele do paciente? Como fazer com que uma prótese de plástico se ecaixe de forma agradável e o menos invasiva possível no corpo da pessoa? Qual o melhor material a ser usado na impressão para fazer essa adaptação? “Tem coisas que eu não sei a resposta mas eu acabo trazendo porque são as minhas questões trabalhando com o grupo [do Programa Mao3D, da Unifesp] e questões que temos que pensar”, já que não existe uma fórmula pronta, cada caso é um caso, afirma a terapeuta.


Patrícia Abe fez uma apresentação durante evento “Próteses e órteses produzidas por manufatura aditiva”, na Unifesp de São José dos Campos, onde detalhou como as etapas do trabalho de confecção de uma prótese de mão, desde a avaliação inicial de sensibilidade, até uma prescrição detalhada incluindo fatores cirúrgicos, físicos e protéticos, treinamento, adaptação e principalmente acompanhamento do paciente, visando a reabilitação e principalmente o conforto do usuário:

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