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O Museu Nacional do Rio de Janeiro celebra 200 anos de sua fundação em 2018 com um presente especial, à altura do pioneirismo da instituição, a mais antiga e que reúne os acervos mais preciosos em História Natural e Antropologia do país. Trata-se da modelagem 3D detalhada da face de um brasileiro que viveu há cerca de 2 mil anos na região de Guaratiba, zona oeste da cidade, revelada recentemente por pesquisadores do Setor de Antropologia Biológica do Museu Nacional da UFRJ em parceria com a Faculdade de Medicina e Odontologia São Leopoldo Mandic, em Campinas.

Crânio foi descoberto na década de 1980 no RJ

Foi na década de 1980 que os arqueólogos do Museu Nacional encontraram a ossada, a partir de escavações realizadas no sítio Sambaqui do Zé Espinho. Trinta anos depois, foi batizada de “Ernesto de Guaratiba” – uma homenagem ao dentista Ernesto Salles Cunha, que dedicou grande parte da carreira ao estudo das patologias dentais das populações pré-históricas que habitavam as áreas de sambaqui no Estado.

Com a ajuda de um recurso do software livre Blender, foi possível reconstruir e “revelar” a face de Ernesto com precisão de detalhes. “Ernesto não apareceu de repente, ele foi sendo formado aos poucos, com base na contribuição de cada membro da equipe, dentro da sua área de especialidade. Após muito trabalho de pesquisa chegamos a um consenso, de que essa aparência facial é tecnicamente a mais compatível com a aparência que ele poderia ter”, conta o Dr. Paulo Miamoto, especialista em Odontologia Legal e docente na Faculdade de Medicina e Odontologia São Leopoldo Mandic, em Campinas, para onde foram enviadas as fotos dos ossos de Ernesto.

Inicialmente foi feita a réplica virtual do crânio a partir de fotografias com câmera digital. Para as fotografias, o crânio foi colocado no centro de uma mesa e as fotos foram tiradas a cada 23°. As imagens processadas deram origem ao arquivo 3D “bruto” do crânio. A partir das marcas deixadas pelos músculos nos ossos, os cientistas foram aos poucos preenchendo o rosto do homem. Depois de preencher os músculos, o computador faz a simulação das cartilagens do nariz, dos olhos e das glândulas salivares, estruturas que contribuem para o formato da face humana. A pele foi a etapa final, onde o rosto de Ernesto finalmente se revela.

Fotogrametria: crânio foi posicionado no centro de uma mesa e as fotos foram tiradas a cada 23°

“Nós optamos por colocar algumas linhas de expressão facial que pudessem passar a ideia do estilo de vida que ele tinha na época”, comenta o Dr. Miamoto. Um trabalho que, por sinal, envolveu uma equipe multidisciplinar formada pelos arqueólogos Claudia Rodrigues Carvalho, Murilo Quintans Ribeiro Bastos, Victor de Souza Bittar, Rachel Lima Ribeiro Tinoco e Louise dos Santos Botelho Gomes, todos do Museu Nacional do Rio de Janeiro, enquanto Dr. Paulo trabalhava da cidade de Campinas, onde reside. Essa também é uma característica importante do projeto, na medida em que pode ser realizado de forma colaborativa e remotamente.

O estudo anatômico do crânio de um indivíduo permite estimar a posição e aspecto das estruturas da face, como os músculos, olhos e nariz. A técnica de aproximação facial consiste em basear-se nestas informações para que seja produzida uma imagem compatível com a aparência em vida do indivíduo. Além da aproximação facial, foi realizado um estudo osteobiográfico detalhando alguns aspectos sobre quem era e como viveu este indivíduo. O estudo consiste na reconstrução de características como sexo, idade e estatura, e permite até mesmo obter algumas informações sobre doenças e atividades físicas. No caso de Ernesto, por exemplo, descobriu-se que morreu de causas naturais, com cerca de 50 anos, e possuía uma dieta rica em proteína, possivelmente por se alimentar dos peixes e crustáceos que existem até hoje nos rios e mangues da região onde foi encontrado.


Para realizar esse trabalho, o Dr. Miamoto nos conta que usou um recurso do software livre Blender chamado “ManuelBastioniLAB”, que reúne cerca de 18 anos de experiência do autor do recurso em criações orgânicas e formas humanas.

Revelar a face de Ernesto não foi importante apenas para estabelecer uma conexão entre os brasileiros de hoje, e os habitantes do nosso país, 500 anos antes da chegada dos portugueses. A tecnologia usada no processo também poderá ser muito útil para os brasileiros do futuro, principalmente no combate ao crime. “Nós poderíamos aplicar as mesmas técnicas dentro dos institutos de perícia e dentro da polícia científica. Dessa forma, ossadas de pessoas desconhecidas poderiam passar pelo mesmo processo, sendo que a imagem facial sendo divulgada poderia levar ao esclarecimento desses casos por parte da polícia”. Uma espécie de “retrato falado moderno” que, esperamos, possa revelar com precisão cada vez maior os detalhes do rosto de uma pessoa.  

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