“A hipótese do meu trabalho foi a transferência de tecnologia. Porque aquilo que na indústria automotiva já é mais do que consagrado, não está sendo aplicado nas outras indústrias [como deveria]”. O trabalho em questão é nada menos que a tese de doutorado do professor universitário Guto Marinho, a partir da criação de uma metodologia que consiste na aplicação de simulação virtual para análise de desempenho, com o objetivo de prever possíveis falhas antes da produção em escala de uma linha de calçados (por exemplo). Com base em estudos dos fenômenos relacionados às deformações de materiais sofridas por cargas aplicadas, Guto conseguiu provar que é possível aprimorar o conforto do calçado em 30%, em modelo criado sob medida – ou personalizado, como queira – para o usuário.


Com formação em Desenho Industrial e experiência de mais de 20 anos na área de moda, Guto teve a sacada de replicar a tecnologia para o design de calçados, seu expertise. Na indústria, ele conta que nunca ouviu ninguém discutir com profundidade “científica ou tecnológica”, mas simplesmente “apelar para um modelo de prova” em que é preciso “confiar” no ajuste ideal da modelagem do calçado. “Esse é o empirismo atual”, brinca ele. Para mudar esse cenário e encarar o desafio do doutorado, porém, ele optou pelo desafio mais intenso: estudar o salto alto, tido como um dos modelos mais desconfortáveis para uso no dia a dia.

“Discutir conforto de um salto alto feminino parece que não tem sentido nenhum. Muitos foram taxativos e duvidavam que eu pudesse minimizar o desconforto a um patamar de 5% que fosse”, conta Guto, que é professor na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo. A surpresa, no entanto, foi que ele chegou a 30% de aperfeiçoamento no conforto do salto alto, em um estudo minucioso de 202 páginas que compõe a sua tese de doutorado, intitulada: “O design de calçados na (re)evolução digital: proposta de uma metodologia para análise de desempenho de calçados femininos com foco no conforto do usuário, utilizando a modelagem virtual e a impressão 3D”. Guto, que tem larga experiência com o software de modelagem 3D Rhinoceros, disse que escolheu o software por se tratar de um programa “de designer para designer” na forma de operar.

scan 3D
Ele também dá a dica para quem trabalha com vetor: procure integrar recursos do CorelDraw ou Illustrator com o Rhinocheros. “Vetor com 3D é uma conversa interessante. O raciocínio para construção das linhas é bem parecido”. A elaboração do modelo de análise a partir de dados de pressão plantar é realizado com base em ensaios de baropodometria, onde o usuário veste palmilhas com sensores que medem as pressões instantâneas durante o caminhar. Os dados são convertidos no software de modelagem, que faz a análise pelo método dos elementos finitos. As forças aplicadas na palmilha virtual simulam as regiões de picos de pressão do pé obtidas pela baropodometria, caracterizando a distribuição da pressão plantar. “Essas análises podem auxiliar novos projetos de calçados, dando o suporte necessário para a idealização de soluções que proporcionem diminuir os picos de pressão, causando assim menor desconforto e maior adequação do projeto às características fisiológicas de cada usuário pela criação de palmilhas anatômicas e personalizadas, como sugere o resultado das análises”, diz o abstract do projeto.

“Desenhar um móvel é muito mais simples que desenhar um carro, sem dúvida alguma. Então porque ninguém nunca trabalhou com ensaios de desempenho virtual para o design em geral”?

A indagação acima é o combustível para uma reflexão a respeito dos rumos da indústria calçadista no Brasil e no mundo, conforme a entrevista que fizemos com o professor Guto, que conta em detalhes o que o motivou a se envolver de corpo e alma no projeto de doutorado, a ponto de já começar a transferir a tecnologia também para outros mercados, como o de motociclismo:

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