Um dos principais sinais de crescimento sustentável de um país é seu investimento em inovação tecnológica. A fórmula é simples: invista em inovação tecnológica e crie um diferencial competitivo. Esteja à frente do seu tempo. Este último, por sinal, já é lugar comum em apresentações sobre o tema – no mundo inteiro, vale ressaltar, não apenas aqui no Brasil. Mas há um detalhe sutil – e fundamental – nessa história: se, por um lado, o chavão do “estar à frente do seu tempo” não seja uma mentira, precisamos arriscar para que isso aconteça. Em outras palavras: a inovação tecnológica envolve também um risco tecnológico.

E essa é, sem dúvida, uma das principais razões do atraso no desenvolvimento de tecnologias competitivas locais não apenas no Brasil, como também em outros países da América Latina, caso, por exemplo, da vizinha Argentina. Ironicamente, é também a razão do crescimento pujante de outras destacadas economias no mundo, como a China – com crescimento no PIB de ‘apenas’ 6,8% em 2017, e contando. Como entrar nesse páreo duro? Qual segmento da indústria aceitaria “arriscar” investindo em inovação tecnológica?

No Brasil, sabemos que existem inúmeras barreiras – burocráticas, principalmente – para isso. Na Argentina, idem. Só que, por lá, essa história vem ganhando novos contornos. Em julho de 2013, representantes do governo e da indústria daquele país convidaram um grupo de acadêmicos e especialistas para fazer um estudo minucioso do uso da eletrônica na indústria argentina. Como resultado, descobriram algo interessante: a maior parte das fabricantes de suprimentos para a indústria argentina ou não possuiam eletrônica embarcada, ou a mesma era cara, e importada; em menor medida (muito menor por sinal), havia os dois últimos extremos da cadeia: eletrônica totalmente obsoleta x eletrônica moderna e arrojada. E porque esse cenário, se lá não falta mão de obra ou acesso à tecnologia?

“Muitas empresas pensam que fazer eletrônica competitiva é como construir uma máquina do tempo, quando sabemos que não é bem assim”, teoriza Pablo Ridolfi, engenheiro e professor de Buenos Aires especialista em sistemas embarcados. “Então criamos o projeto Computadora Industrial Abierta Argentina (CIAA) com o intuito de minimizar o risco tecnológico: podemos, por exemplo, explicar para as empresas argentinas como fazer eletrônica competitiva, como fazer com que seus produtos possam competir de igual para igual com países da Europa, Ásia e mesmo com a indústria local”, explica Ridolfi, que é coordenador geral do projeto e também responsável pelo desenvolvimento do hardware que originou diversos modelos de placas atualmente em uso na indústria argentina.

CIAA-NXP

Placa CIAA-NXP, primeira desenvolvida pelo projeto CIAA argentino

 

A ideia central do projeto, segundo o professor Ridolfi, é dar visibilidade positiva ao desenvolvimento da indústria eletrônica na Argentina. E também não apenas reduzir o risco tecnológico envolvido no processo como um todo, mas introduzir pequenas transformações estruturais, capazes de impulsionar o desenvolvimento tecnológico local e claro, minimizar custos – como por exemplo, incentivando a compra de peças locais em lugar das importadas. Ridolfi tem conseguido essa façanha a partir do fomento de redes de comunidades envolvidas diretamente e indiretamente no projeto da CIAA, unindo entidades governamentais, acadêmicas e instituições de fomento à indústria na Argentina.  

A primeira versão da placa, batizada de CIAA-NXP, é o primeiro computador industrial com design projetado para atender requisitos de confiabilidade, temperatura, vibração, ruídos eletromagnéticos, tensões e curto-circuitos, entre inúmeros outros, demandados por produtos e processos industriais específicos. E o mais interessante do projeto: a documentação técnica e de código fonte estão disponíveis como licença livre (BSD) e gratuita no site oficial do CIAA e pode ser usada sem restrições para o desenvolvimento de produtos e serviços, com ou sem fins lucrativos.

Em um cenário bastante semelhante no Brasil – onde urge inovação e competitividade em tempos de Indúsitra 4.0 – esse “detalhe” faz toda a diferença. Pelo menos para os que estiverem abertos a aprender com o modelo argentino em curso. No vídeo abaixo, registrado durante a Latinoware 2017, Pablo Ridolfi detalha como iniciou sua experiência à frente da CIAA, os principais êxitos e desafios do projeto, e claro, os tipos de placas industriais e suas diversas finalidades:


Github oficial: https://github.com/ciaa

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