Por Virgil Anderson*

 

Virgil AndersonAntes de falar sobre a fantástica possibilidade de contarmos com pulmões impressos em 3D em um futuro muito próximo, quero lhes contar um pouco da minha história, e da razão pela qual decidi compartilhar essas linhas com vocês.

Até alguns anos atrás, eu era muito ativo. Nasci e cresci em uma família muito batalhadora de Williamson, West Virginia. Meu pai trabalhava em uma mina de carvão, e faleceu quando eu tinha 8 anos de idade. A partir do ensino médio, comecei a trabalhar com demolições e escavações. Isso exigia grande esforço físico na remoção diária de paredes, tetos, sótãos, sistemas de aquecimento e de resfriamento de construções. Posteriormente também trabalhei como mecânico de automóveis, e reparei ou substituí quase tudo o que você possa imaginar em vários tipos de veículos.

Certo dia acordei lutando contra uma tosse seca e teimosa. Não refleti muito a respeito até que começasse a piorar, a ponto de precisar me esforçar muito para conseguir caminhar até o portão da minha casa. Mesmo quando estava descansando, parecia que não conseguia recuperar o fôlego de forma alguma. E claro que isso me deixou um tanto intrigado. A essa altura eu também já pensava que teria que ir ao médico e tirar uma folga do meu trabalho. Muitas pessoas gostam de passar alguns dias doentes em casa, mas esse não é o meu caso, definitivamente. Gosto de estar sempre em movimento, caso contrário, sinto que não estou realizando nada.

Assim como muitas outras pessoas nos Estados Unidos, não me inscrevi no Obamacare. Logo, não tinha seguro médico. Minha única opção era o posto de saúde local. Após o exame, fui diagnosticado com pneumonia e me receitaram antibióticos. Depois de algumas semanas, meus sintomas eram os mesmos, se não piores. Foi quando eles decidiram fazer um PET scan (tomografia completa) do meu peito. Embora a suspeita inicial fosse pneumonia, tanto o exame de raio-X como o PET scan constavam que havia água acumulada no pulmão (líquido pleural). Era bastante incomum um paciente de 50 anos apresentar um diagnóstico como esse, então examinaram o fluído em busca de células cancerosas.

Quando testaram a amostra, fiquei aliviado ao ouvir que não havia sido encontrada nenhuma célula cancerígena. Algumas semanas depois, fizeram uma biópsia para confirmar que eu não tinha câncer. Quando os resultados da patologia voltaram, eu estava sentado lá, impacientemente aguardando que ele apenas me dissesse que precisaria de uma receita diferente ou algo assim. Infelizmente, não foi bem assim. Usando um monte de termos médicos e detalhes do processo de teste, ele finalmente deixa sair um “não conheço nenhuma outra maneira de dizer isso, mas tenho más notícias para você”. Ele então me disse que era Mesotelioma, enquanto eu não fazia ideia do que isso significava. Uma vez que comecei a pesquisar o termo na web… percebi o quão ruim era tudo aquilo.

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Mesotelioma: tumor do tecido que reveste os pulmões e outros órgãos


Nunca pensei que um dia ouviria as palavras “você tem câncer”. Especialmente o Mesotelioma, que é um câncer causado pela manipulação de amianto. Geralmente afeta as pessoas em seus 60 ou 70 anos ou mais. Mas eu não podia acreditar. Tudo o que eu pensava era: como? Por que eu? Como alguém como eu, tão jovem e fisicamente ativo durante toda a vida, tem câncer? Foi-me dito que precisava de uma atenção médica imediata. Fiquei com raiva, triste, confuso. Mas fui atrás de descobrir como e de onde veio minha exposição. E encontrei alguns sites na internet especializados em Mesotelioma. Um deles, especificamente o Mesothelioma.net, tinha uma grande quantidade de informações. Por fim, não conseguia acreditar quantos produtos poderiam conter amianto: concreto, isolante, tijolos, azulejos, telhas, e inúmeras peças automotivas. Isso esclareceu tudo.

Durante as semanas seguintes eu me senti no limbo total porque precisava encontrar um oncologista especialista em Mesotelioma, mas antes tinha que aguardar até obter o seguro de invalidez expedido pelo governo. Percebi então que a espera pelo seguro social não estava acontecendo de forma rápida o suficiente. Felizmente, consegui encontrar ajuda no National Cancer Institute em Bethesda, Maryland. Eu me tornei extremamente limitado em minhas atividades. Não posso mais trabalhar e vivo com dificuldade por conta da deficiência que possuo. Tenho procurado me exercitar, mas por conta do acúmulo de fluído nos meus pulmões, tenho que tomar muito cuidado para não exceder-me demais. E também ando com um tanque de oxigênio portátil que me confere alguma mobilidade.

Não consigo mais fazer as coisas que costumava fazer. Mas pelo menos estou vivo. Não é fácil se ajustar a esse novo estilo de vida quando somos ativos a vida toda. Algumas coisas estão além do nosso controle e sentir-se indignado com as injustiças da vida é completamente normal, mas não mudará nada a longo prazo. Entrar em uma espiral descendente de depressão também não fará nenhum bem. Eu tenho que me manter positivo e apreciar o tempo que aproveito com a família e os amigos. E parte desse tempo eu me dedico a pesquisar alternativas para a cura de doenças que destroem órgãos, como é o caso do câncer.

 

Um sopro de esperança

 

Com a invenção da tecnologia de impressão 3D, em meados de 1980, diversos segmentos da indústria têm apostado em novas oportunidades para expandir seu desenvolvimento. Um desses segmentos é justamente o campo da saúde, onde a tecnologia de impressão 3D para criação de pulmões artificiais trazido esperança de cura para o Mesotelioma. Também chamado de “Asbestos Cancer”, o Mesotelioma afeta o tecido que reveste os pulmões e é causado basicamente pela exposição ao amianto em parques fabris onde o componente é amplamente utilizado – ou foi, até pouco tempo atrás, quando passou a ser proibido em países desenvolvidos. No Brasil, apenas em novembro de 2017 os ministros do STF decidiram pela proibição do uso e comercialização do amianto no país.

 

Como a impressão 3D está apenas começando a ganhar força na criação de tecido humano biocompatível, ainda não está muito claro qual impacto a tecnologia terá nesse contexto. No entanto, o potencial é altíssimo, uma vez que os transplantes de órgãos sempre foram difíceis e possuem também particularidades próprias – como a questão da rejeição, por exemplo.

E doenças como o Mesotelioma, em última análise, destroem o órgão que afetam. Assim, um novo tecido ou um novo órgão podem ser decisivos para a vida ou a morte de um paciente.

Como a impressão 3D funciona

 

Nem todo mundo sabe o que é a impressão 3D ou como ela funciona. Outro nome, talvez mais apropriado, é “fabricação aditiva”. Trata-se essencialmente de criar um objeto tridimensional, como um copo, por exemplo, a partir de um arquivo de computador. Uma máquina de impressão em 3D executa o processo aditivo – de adição de material – que vem a ser o oposto de um processo subtrativo – como conhecíamos até a criação da tecnologia de impressão 3D. O processo subtrativo é quando algo é fabricado a partir da remoção de material para criar o objeto final. Um exemplo seria criar uma xícara a partir de um bloco de madeira usando uma faca para esculpir a peça.

As camadas de madeira devem ser sistematicamente removidas para criar a xícara. Em um processo aditivo, por sua vez, camadas de material são adicionadas uma à outra para criar um objeto, que é fabricado a partir das instruções contidas no arquivo de computador – arquivo 3D – que são transmitidas para a máquina de impressão 3D. Em última análise, o grande “gap” da tecnologia de manufatura aditiva é justamente o fato de usar menos material do que o processo subtrativo, que necessariamente inclui muito desperdício.

 

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Fonte: https://3dprint.com/156648/czech-researchers-3dp-lung/


O potencial da impressão 3D para criar tecidos humanos é muito importante e não deve ser subestimado. Atualmente, existem vários problemas com a forma como órgãos e tecidos humanos são transplantados. O tecido doado é a única maneira de obter partes humanas até agora, sendo que os dois principais problemas associados ao método são a longa lista de espera e a possibilidade sempre presente de que o corpo do paciente irá rejeitar o novo tecido ou órgão.


A impressão 3D, por sua vez, já foi experimentada para criar novos órgãos, mas até agora nenhum deles foi doado a uma pessoa viva. O primeiro órgão criado foi uma orelha e usou materiais como hidrogel, nanopartículas de prata e células humanas. O tecido artificial foi criado para testar novos medicamentos. Eventualmente, pode ser usado para reparar órgãos danificados, como pulmões ou fígado.

Para pacientes com câncer de pulmão, no entanto, a impressão 3D pode mudar completamente o jogo. Eles não teriam que suportar o sofrimento prolongado enquanto aguardam por doações de órgãos. Atualmente, os transplantes de pulmão raramente são usados no tratamento do Mesotelioma, exceto em último recurso para manter o paciente vivo por mais tempo. No entanto, com a impressão 3D, os pacientes poderiam receber um pulmão “personalizado” totalmente biocompatível. Outra possibilidade fantástica para a impressão 3D é criar modelos precisos do interior do paciente antes da cirurgia: as chamadas “guias de cirurgia”, usadas já por muitos médicos atualmente para planejar uma intervenção cirúrgica.

Embora seja necessária ainda muita pesquisa e experimentação antes que órgãos impressos em 3D se tornem uma realidade factível, a nova tecnologia tem o potencial de revolucionar completamente a Medicina, e tornar doenças que destroem órgãos uma coisa do passado.

*Se quiser saber mais sobre mim, visite: mesothelioma.net/virgil

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